sábado, 22 de março de 2014

Inocentes pagam por pecadores.

No ano de 2009 eu trabalhava em uma empresa de transporte de passageiros. Vários acontecimentos marcaram a minha memória e eu não consegui deixar isso apagar da minha mente. Foram cerca de três anos neste ramo; vi e ouvi muita coisa que para mim foram engraçadas, tristes, preocupantes e marcantes. Vai ser a primeira vez que escrevo sobre minhas experiências profissionais neste blog, tanto é que já exerço outra profissão bem diferente desta que vou relatar. Faz mais de cinco anos que isto aconteceu, porém vou compartilhar com vocês do blog.

A ordem da empresa de transporte era não deixar embarcar no veículo pessoas que não tivessem condições de pagar a passagem; ou seja, carona estava proibido. Eu nunca fui de facilitar as coisas para os usuários daquele serviço, pois meu emprego é que estava em jogo. Tantos eram os funcionários que faziam suas "cortesias" aos passageiros que a direção da empresa contratou pessoas para fiscalizar o serviço. Embarcavam como usuários do transporte, mas na realidade anotavam e gravavam tudo o que acontecia no interior do veículo, desde o nível de humor do funcionário até o tipo de conversa que acontecia ali.

De semana em semana ouvia-se dizer que um funcionário foi demitido, por conta de apontamentos do tal funcionário disfarçado de passageiro. Eu trabalhava sozinho naquele veículo e para mim, qualquer um que entrava era um "fiscal-secreto". De tudo, o que mais impressionou-me foi o caso de uma senhora de mais ou menos 55 anos, e o caso de uma mãe que parecia ter uns 30 anos.

Lá estava eu fazendo o trajeto quando uma senhora de idade embarcou. Ela disse que estava com uma cédula de R$50,00. Como não era comum ter troco para aquela quantia, eu pedi para que a mesma aguardasse e quando fosse desembarcar, verificaria se teria troco suficiente. O fato se repetiu duas vezes por semana. Na terceira semana que a mesma bondosa senhora adentrou o veículo eu já alertei: Caso não tivesse dinheiro trocado, não poderia deixar ela permanecer e a mesma deveria embarcar em outro veículo, afinal, nunca teria troco para aquela nota de 50. A senhora ficou nervosa e disse que eu seria obrigado a devolver o troco para ela, então de um modo cortês, ignorei o nervosismo dela e continuei o percurso. Quando chegou a hora da "mala" desembarcar; (desculpe) quando chegou a hora da senhora de 55 anos desembarcar, eu disse a ela que já estava com o troco suficiente e que ela poderia fazer o pagamento. Logo ela: arregalou os olhos, olhou para a direita, para a esquerda, engoliu seco, coçou a barriga e começou a mexer em uma bolsa de couro. Fuçando daqui e dali... Nada de achar o dinheiro.

Querido leitor, ninguém esconde uma nota de 50 reais tão bem escondido a ponto de nunca mais achá-la. A verdade é que a senhora da bolsa de couro não tinha a tal da nota e andou de graça por alguns dias comigo e com toda a empresa. Olhei para os olhos dela e disse de forma educada: "Amanhã quando for entrar no veículo, favor entrar com o dinheiro na mão". Não sei o que houve mas acho que ela pegou a condução errada na volta para casa, porque nunca mais vi a bondosa e "honesta" senhora da bolsa de couro.

Estávamos na empresa em uma reunião quando foram citados os nomes de funcionários que trabalhavam conforme orientações da empresa. O meu nome estava lá e desde aquele dia em diante, dediquei mais a cumprir determinações dela. Neste dia foi falado sobre passageiros que embarcavam e desembarcavam, porém o dinheiro da passagem ia para o bolso do funcionário, ao invés de ir para o caixa da empresa. O tema da reunião foi sério e saímos de lá preocupados... Preocupados em sermos confundidos durante o trabalho, ou mal interpretado... Algum agente secreto da empresa entender algo errado, ou sei lá o quê...

Outro dia, mudança de setor. Fazendo o trajeto do outro lado da cidade, estava ainda para conhecer as pessoas que eram comuns ali diariamente. Certa parada para embarque de uma mulher que carregava uma criança de colo... A porta abriu, ela nem entrou. Com um pé no degrau e o outro na calçada, olhou para mim, tentando enxergar-me, pois o sol estava ofuscando suas vistas. Com uma mão segurando a criança em seu braço, agarrou no suporte da porta e disse: "Moço, eu estou sem dinheiro hoje, eu estou sozinha na cidade e preciso voltar para casa, você pode me levar? Por favor?".

Parecia um reality show. Dias antes acabava de participar de um assunto deste tipo de acontecimento e justamente, exatamente isto acabava de acontecer. Com uma mão no volante, estendi a minha outra mão no câmbio e disse para ela: "Não tem como!". Expliquei como era a norma da empresa e que estaria arriscando meu emprego caso fizesse conforme havia pedido. Naquela hora ela olhou para mim, desta vez enxergando-me bem e disse: "Me ajuda, por favor..."
Mais uma vez eu disse que não poderia levar ela sem pagar passagem.

Naquela hora pensei que teria algum agente secreto da empresa, admirando meu trabalho e anotando em seu relatório que eu não descumpri nenhuma regra da empresa. Depois acreditei que aquela mulher com criança era uma espécie de arapuca para me pegar e depois isto ser o motivo de uma demissão. Eu estava muito empolgado com a oportunidade que a empresa havia me concedido e não queria arriscar meu emprego por nada. Mais uma vez disse "não" e ameacei arrancar com o veículo. Os olhos dela, olharam nos meus e eu vi, lágrimas brotarem do canto dos olhos e ela tentando segurar. Aquela mulher com um filho nos braços chorava por que não poderia ser ajudada. Meu coração imediatamente despedaçou e eu fiquei sem saber o que fazer.

E se fosse mais uma pessoa usando de má fé, como aquela senhora da nota de 50 reais?
E se fosse uma espécie de "pega" para a empresa me testar e futuramente dispensar?
E se tivesse um fiscal disfarçado dentro do veículo?
E se fosse verdade aquela situação e o fiscal também estivesse presenciando?
Eu simplesmente disse assim: "Só se tiver alguém aqui que queira pagar sua passagem..."
Naquela mesma hora levantou do assento uma jovem estudante que pagou a passagem para ela.
Ela adentrou o veículo chorando e tentando esconder sua vergonha, e eu fechei a porta e conduzi os passageiros até o destino com a minha cabeça baixa, pois havia me sentido como um carrasco.

Eu nunca contei isto para alguém, afinal de contas seria tachado como um bruto, ignorante, sem sentimentos... Sei lá... Mas o tempo foi passando e logo todos os funcionários foram adaptando-se as exigências da empresa. Hoje, andando pelas ruas, vi algo parecido e me lembrei. Não me culpo por aquele dia, afinal estava trabalhando. Uma coisa percebi, pelo menos neste dia os "inocentes pagaram pelos pecadores".

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