quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Era uma vez...


Era uma vez um vendedor de verduras que caminhava todos os dias por um bairro inteiro oferecendo alfaces, tomates, maçãs e laranjas. Ele não se cansava daquela rotina de bater de porta em porta a procura de compradores. Tinha dia que não vendia quase nada e tinha dia que logo no final da manhã tudo estava entregue e seu carrinho voltava leve. Esse era o melhor dia de sua vida, quando conseguia vender todas suas verduras e frutas.

Sempre passava por uma casa no final da avenida quando ia embora para seu lar, e notava que naquele lugar morava apenas uma senhora já de idade bem avançada, com um garotinho, o que provavelmente seria seu neto ou filho de adoção. Aquele homem nunca viu mais do que os dois naquela casa simples e escura, era normal aquela situação já que se tratava de um bairro antigo e seus moradores quase sempre foram os mesmos.

Certo dia saiu a vender, empurrando seu carrinho e anunciando com voz forte em ritmo de música seus produtos, passou em frente a casa e escutou alguém o imitando. Bem, era normal que uma criança tentasse até zombar do seu jeito de anunciar as verduras, mas ele não se chateava e continuava a anunciar bem mais alto. E assim, o garotinho que já o conhecia de longe pela voz rouca e firme, ficava imitando o vendedor em suas brincadeiras. Sua avó, dizia que era errado criticar os outros. O garotinho se explicava dizendo que queria ser um vendedor de verduras quando crescer. Apesar da vida miserável, a  avó ignorava e dizia que ele teria que ser um médico, um advogado, um executivo, mas nunca um vendedor de verduras.

Aquele homem passava na ida e na volta diante da casa, mas teve um dia que o garotinho sorriu para ele e correu em sua direção. O homem parou, acreditando que faria sua primeira venda naquele dia tão difícil. Era final de tarde e o carrinho estava repleto de folhas, umas mais murchas que as outras e o homem pulverizava água sobre elas para retardar o efeito. O garotinho sorriu e disse ao vendedor: “Eu acho muito bonito o seu trabalho, eu quero ser igual ao senhor quando estiver grande”!
O homem sorriu e começou a chorar disfarçadamente para que o menino não percebesse as lágrimas, e como uma forma de retribuição por aquelas palavras sincera, ofereceu algumas laranjas e maçãs ao menino. Deu a ele também alface e couve. Logo saiu pelo caminho, emocionado por encontrar palavras agradáveis naquele dia.

A avó do garoto questionou ao menino a procedência daquelas coisas e o garoto contou o que tinha ocorrido. Era justamente o que faltava naquela casa, estava pronto somente o arroz e nada mais, e a senhora abraçou o menino e disse que faria uma boa salada para comerem com o arroz e que a sobremesa seria as frutas. O garoto ficou muito feliz, e a senhora bastante alegre por ser presenteada no momento em que restava apenas um pouco de arroz para comer.

O vendedor chegou em sua casa e relatou à esposa o ocorrido, e disse: “Eu estava tão desanimado de sair amanhã para vender, mas encontrei um garotinho, ele me disse que me admira e quer ser como eu.”  Daquela simples frase, o vendedor encontrou forças para trabalhar por mais vinte anos naquele ritmo de vida, criou filhos e vivia uma velhice simples, mas honrada. E por mais de 10 anos, sempre ofertava aquela família pobre, parte do que não vendia. E quando vendia tudo, dava parte de suas vendas aquela família humilde.

O garoto cresceu, estudou e quando jovem, tomou posse de uma herança que lhe estava reservada, para quando atingisse a maior idade. Era uma fazenda que seus pais biológicos haviam deixado para ele. Sua avó, de criação;  bem mais velha que antes, conseguia arcar com as mínimas despesas da casa através de tapetes que fazia e quadros que pintava. O menino que sempre estudou em escola pública, agora estaria prestes a se formar em direito. Quando soube da notícia da herança, foi orientado e aconselhado por muitos a não envolver com fazendas, disseram a ele que seria melhor se vendesse e aplicasse o dinheiro em outras coisas.

O jovem não pensou duas vezes. Foi até a casa daquele antigo vendedor de verduras e o convidou para ser o gerente da grande fazenda, ali o homem poderia plantar e colher o que quisesse e a cada mês, daria uma cabeça de gado como salário. Levou-o até a sede da fazenda e perceberam quão aconchegante era aquele lugar. O homem ficou espantado e muito feliz, nem acreditava no que estava acontecendo. Sua esposa aceitou a proposta e logo todos se mudaram para aquele imenso lugar verde. A avó do garoto não quis deixar a antiga casa que sempre moravam, e o jovem realizou uma grande reforma naquele lugar.

O rapaz crescia e entendia que indiretamente foi sustentado pelo vendedor de verduras, que nunca exigiu nada em troca. E até o dia de hoje, nos finais de semana, o garoto sai com o mesmo carrinho de verduras, não para vender, mas para alimentar as famílias mais pobres daquele bairro. E durante a semana, o antigo vendedor de verduras, distribui alimentos ajudando os que sentem fome e que moram nas ruas.

Em uma casa distante, várias pessoas  esperam a visita deles, na esperança de receber alimento para os seus corpos e carinho para seus corações. Com o passar do tempo eles aprenderam também que, aquele que tem, deve contribuir com os que não têm. E agindo assim, quase não haverá o necessitado sobre a terra.

Um comentário:

  1. Tem sentido mesmo. A humanidade seria diferente caso pensássemos no próximo. A fome, é terrível amigo.
    M.cury

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